kanem6_STEFANIE GLINSKIAFP via Getty Images_maternal mortality STEFANIE GLINSKI/AFP via Getty Images

Retrocesso na mortalidade materna

NOVA IORQUE – Em 2020, estima-se que cerca de 287 mil mulheres perderam a vida durante a gravidez, o parto ou logo após o parto, de acordo com os dados mais recentes do Grupo Interagências de Estimativa da Mortalidade Materna das Nações Unidas, que inclui o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês), onde exerço o cargo de diretora-executiva. Este número é aproximadamente equivalente ao número de mortos no tsunami no Oceano Índico de 2004 ou no terramoto de 2010 no Haiti, dois dos desastres naturais mais mortíferos da história moderna.

A devastação humana numa escala desta dimensão é, geralmente, recebida com semanas de cobertura de notícias, manifestações públicas de apoio e pedidos de ações urgentes. No entanto, o número impressionante de mulheres que morrem todos os anos quando estão a dar à luz continua a ser, em grande medida, uma crise silenciosa. E o mais preocupante é que o grupo descobriu que o progresso na redução das mortes maternas está num impasse.

Quantos de nós conhece alguém que morreu, ou quase morreu, durante a gravidez ou o parto? Talvez o sofrimento “entranhado” seja parte do problema – pode parecer que as mortes maternas são inevitáveis. No entanto, a grande maioria pode ser evitada com intervenções simples que economizam dinheiro a longo prazo.

Uma das formas mais económicas de reduzir a mortalidade materna, a nível mundial, é investir em cuidados comunitários, incluindo a educação e a mobilização de parteiras. Para realizar essa etapa, será necessário aumentar substancialmente a mão de obra – o mundo enfrenta atualmente uma escassez de 900 mil parteiras – e combater as normas de género persistentes que desvalorizam as contribuições de um campo predominantemente feminino.

Reduzir o número elevado de gestações indesejadas é outro passo fundamental para reduzir a mortalidade materna. A pesquisa do UNFPA mostra que quase metade de todas as gestações são indesejadas, mais de 60% das gestações indesejadas terminam em aborto e cerca de 45% de todos os abortos são realizados de forma insegura, tornando-os uma das principais causas de morte materna. Os governantes sabem como resolver esse problema: aumentar o acesso a contracetivos de qualidade, melhorar a educação sexual abrangente e proteger o direito da mulher de decidir se, quando e com quem quer ter filhos.

Os líderes mundiais têm feito progressos significativos quando são chamados a salvar a vida das mulheres. Em 2000, os governos concordaram com os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, que apontavam para uma redução de 75% na taxa global de mortalidade materna até 2015. A redução de 44% nas mortes durante esse período foi uma conquista significativa – mesmo que tenha ficado aquém da meta.

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Em 2015, com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, os países, mais uma vez, comprometeram-se a reduzir a taxa de mortalidade materna, desta vez para menos de 70 mortes por cada 100 mil nados-vivos até 2030. No entanto, oito anos depois, não estamos nem perto de atingir essa meta e o progresso estagnou. De facto, a taxa de mortalidade materna aumentou em duas regiões – Europa e América do Norte, e América Latina e Caraíbas – desde 2016, e estes cálculos, que terminam em 2020, não contabilizam todo o impacto que a pandemia de COVID-19 teve nos sistemas de saúde.

A falta de investimento na resolução das persistentes disparidades raciais e étnicas que existem na prestação de cuidados de saúde materna é um fator que contribui para esta estagnação. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de mortalidade materna em 2021 para mulheres negras foi 2,6 vezes mais do que a taxa para mulheres brancas não hispânicas. É possível observar disparidades semelhantes em comunidades afrodescendentes na América Latina e nas Caraíbas.

Uma abordagem de cuidados holística e comunitária é crucial para eliminar essas disparidades. No início de minha carreira, trabalhei como pediatra e investigadora de VIH no bairro Harlem, numa época em que o crack, a cocaína e a SIDA estavam a devastar os utentes e as comunidades mais pobres e marginalizados. Ficou claro que não poderia tratar uma criança sem perceber o contexto social mais amplo, no qual se inseria, e os desafios enfrentados pela mãe da criança. E as necessidades médicas das mães e mulheres grávidas que conheci ficavam, muitas vezes, ofuscadas, quando comparadas com a urgência das suas necessidades sociais, destacando, assim, a importância de tratar a pessoa como um todo.

Embora o progresso na mortalidade materna tenha estagnado a nível global, há alguns raios de esperança. O Nepal, por exemplo, reduziu as mortes maternas em quase um terço entre 2015 e 2020, depois de reduzir para metade a taxa do país entre 2000 e 2015. Nesse período, o governo duplicou os gastos com a saúde, legalizou o aborto e tornou os cuidados de maternidade gratuitos.

Da mesma forma, o Sri Lanka reduziu para metade as mortes maternas, pelo menos a cada 12 anos desde 1935, em grande parte devido a um sistema de saúde que oferece serviços gratuitos a toda a população e a um aumento significativo no número de parteiras qualificadas, que agora tratam de 97% dos partos, em comparação com 30% em 1940.

Embora as últimas taxas de mortalidade materna revelem os danos causados pela negligência de soluções que salvam vidas, há uma maneira de acabar com esse sofrimento desnecessário. Desenvolver a capacidade da obstetrícia e garantir o acesso igualitário a cuidados de saúde sexual e reprodutiva de qualidade ajudaria muito a melhorar os resultados de saúde para mais mães e grávidas.

Mas voltar ao bom caminho requer reviver o sentimento de urgência entre governos, comunidades e todas as partes interessadas necessárias para fornecer financiamento adequado e criar um ambiente jurídico e social propício para essas intervenções. Sabemos as razões pelas quais as mulheres ainda morrem durante o parto. A indiferença não deve ser uma delas.

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